quarta-feira, 14 de julho de 2010

Para si...Professora!


"O significado das coisas não está nas coisas em si, mas sim em nossa atitude com relação a elas."


Quando a gente lhes fala de um novo amigo, elas jamais se informam do essencial. Não perguntam nunca: "Qual é o som da sua voz? Quais os brinquedos que prefere? Será que colecciona borboletas?" Mas perguntam: "Qual é sua idade? Quantos irmãos ele tem? Quanto pesa? Quanto ganha seu pai?" Somente então é que elas julgam conhecê-lo. Se dizemos às pessoas grandes: "Vi uma bela casa de tijolos cor-de-rosa, gerânios na janela, pombas no telhado..." elas não conseguem, de modo nenhum, fazer uma ideia da casa. É preciso dizer-lhes: "Vi uma casa de seiscentos contos". Então elas exclamam: "Que beleza!"


"Cada um que passa em nossa vida passa sozinho, mas não vai só, nem nos deixa sós; leva um pouco de nós mesmos, deixa um pouco de si mesmo."
Antoine de Saint-Exupéry


Nunca lhes perguntei quem era, quantos irmãos tinha e de onde vinha…
Tudo o que soube, foi sabendo sem perguntar, sabia apenas que era daquelas pessoas que se conhecem devagar…e…
E em períodos controversos para mim, não tive esse tempo nestes últimos 3 anos de a conhecer verdadeiramente…hoje lamento, pois foi sempre adiando o dia em que talvez tivesse um tempinho de conhecer a mulher/mãe que se vestia de professora durante um breve período de tempo para ensinar aos nossos rebentos, o que nós vamos lamentavelmente esquecendo, esse pouco que sabíamos é-nos ultrapassado pelos hábitos incondicionais de uma outra cultura que nos é imposta…
Três anos por cá ensinando a língua de Camões, puxando os seus pupilos para o gosto da leitura, da literatura, sempre rebuscando em nossas memórias e revivendo em festas ainda que pequenas, os jogos tradicionais de um passado tão perto e tão distante…
Por motivos pessoais regressa agora á terra berço do seu/nosso Portugal distante…
Detesto despedidas, por isso não me despeço mas digo até sempre Professora Lurdes…

E foi com este singelo poema que algumas lágrimas de emoção se soltaram…

Para si professora
Que um dia passou por nós
E agora
Falta pouco
Para apanhar lugar nesse tempo de regresso
E voltar á base
Lusitano solo…
Às entranhas dessa terra berço
Que nos castiga a alma de saudade
Nesta agridoce distância…

Quisera eu oferecer um presente intemporal
Mas só as palavras ficam…

Não é um adeus que quero dizer
Mas é nos poemas que digo o que sinto…
Quisera eu,
Desnudar sentimentos como quem sabe o que faz
Mas sou insignificante aprendiz
Que por um momento quis ser poetisa
E do coração de onde brotam palavras sentidas
Fazer arado
E lavrar palavras na folha infértil
Porque só as palavras ficam…
Esvoaçam na mente, soltas
Aquelas palavras de gratidão que queria escrever…
Mas sinto os dedos impotentes, trémulos
Sinto o silêncio das frases que se calam…
E a estrada que devia desaguar no poema
Torna-se subitamente sinuosa…
Não consigo acompanhar
O ritmo deste rio de emoção que quer galgar as margens da razão
E desaguar nos meus olhos
Será assim um poema inacabado
Onde apenas queria dizer-lhe
OBRIGADO!

Professora
Já alguém lhes agradeceu
Por ensinar o que sabe a um filho seu?
Já alguém lhes agradeceu
Por transmitir tudo o que aprendeu?

Se ainda ninguém lhes agradeceu
Agradeço eu!

Agradecemos nós!
Obrigada professora Lurdes Araújo!
E até já…

quinta-feira, 8 de julho de 2010

Ondulantes...Poemas de Trigo...Na seara da mente...

Ergo os braços,
Bem abertos
Para sentir esta liberdade presa no sopé da montanha…
E a meus pés…
Ondulas…
Arregalo os olhos…
Mas não chega!
Queria mais…
Não consigo guardar…
Registar a transparência com que oscilas…
Diáfano ritmo
Contorces-te diante dos meus olhos
Convidas-me a entrar numa dança impossível…

Frágeis pétalas de papoila
Salientes momentos vermelhos
Na seara ondulante de segredos
Rubros instantes
Pontos frágeis de poesia
Brotam do trigal da mente
No granjeio simples de poemas
Abandonados á mercê da madrugada que invejo

Subestima-se a beleza…
Ignora-se o sentir…
Se não se conhece o sabor do vento
Rajadas de vontades nesse ir e vir
Que me toca os sentimentos
Agita os desejos
Inimaginável beleza numa dança frenética
Onde brinca o meu olhar
Enquanto te vejo crescer
Não pares, não pares agora…
Tento agarrar-te
E nas minhas palavras visto-me de espigas
Desnudo a mente de olhos fechados
Sem pressas…
Sem limites…
Ao som arrepiantemente terno
Do roçar do vento entre nós
A beleza do trigo ondulante
Empresta-me um pedaço
Do seu espaço
Por instantes
Faz-me foice na tua seara
Sinto-me saloia subindo o monte
Inalando o perfume da tua espiga amadurecendo
Dourando nas ébrias gotas de orvalho…

Deito-me olhando o céu
E sinto a leveza do teu peso
Da beleza que me emprestas
Contento-me com estas migalhas
Do sustento que há-de ser um dia
Rendo-me aos teus sussurros
Melodioso roçar que a brisa te oferece
Quebra nas dobras do meu silêncio
O gosto doce que enfeitiça…
Dói-me já a partida
Quando a debulha te levar…

terça-feira, 6 de julho de 2010

Fonte...Mar...


Mar...
Fonte de onde bebo sem ver
Oh tempo, devolve-me as marés,
Cheias de sonhos…
Que banhavam o sopé da montanha…
Queimei momentos ao luar
Com achas de calmaria
De um arder rubro…
Fumos transparentes…
O silêncio fez-se espuma…
Nas ondas de segredos fugidias
A noite invade as memórias
Rebusca memórias de outras noites…
Será ainda o mar, vermelho?

terça-feira, 29 de junho de 2010

Batel de sonhos...


As ondas de saudade
Apoderam-se das delicadas dunas
Nesta praia deserta onde me quebro
A imensidão da tua ausência
Enche-me de marés vazias
As sombras no horizonte
Destroem os castelos de areia
Que construi na vaga espuma do tempo
O nascer pardo do sol
Lembra-me que já é tarde
Pois já anoiteceu
O dia em que o mar me cercou
Fez-me zarpar rumo ao infinito
Naufragando na tempestade de silêncio
Deste grito calado de indiferença
Abalroado...
Pelo vento ao contrário que suga as velas
Vento que afaga os cabelos
Desalinhando os sentimentos
Uma teia de sal prende-me nos segredos
No porão abandonado deste barco
Sou refém de mim
Neste batel de sonhos
No mar seco de poemas á deriva
Sem porto seguro onde os atracar…



quinta-feira, 24 de junho de 2010

Bem-Hajam...


Bem-haja
Quero agradecer a todas as pessoas que me têm dado apoio carinho conforto e força, neste momento em que me sinto um pouco mais fragilizada que o costume.
Não sei se sou merecedora de tanto afecto…
Mas sinto aconchego em cada demonstração de ânimo, em cada palavra de incentivo, sinto e absorvo a energia das palavras que me são ditas ou dadas a ler…
Tenho reflectido em todas as formas de apoio que têm chegado até mim. Mas umas das que mais me emocionou foi o texto que a amiga Luna do blogue http://multiolhares-poetadaspiramides.blogspot.com/
Publicou no dia 22/06…
Como pode alguém que (na realidade) não conheço, que não me conhece, conhecer-me tão bem? (Quando existem pessoas na vida dita real que não me conhecem…)
São sem dúvida alguma, estes pequenos gestos que distinguem as grandes pessoas, os grandes seres humanos!
Obrigada Luna, por tudo…

Obrigado a quem directa ou indirectamente me deu a força que estava a precisar! Através de telefonemas, mensagens, de email, de comentários por aqui deixados (de alguns comentários em que me era pedido para não publicar e eu respeito) …
Bem-hajam, também todos quantos calaram, fecharam os olhos e seguiram olhando para o lado, como se eu não existisse…não fui eu que me tornei invisível, mas sim vocês que deixaram de me ver...

O meu muito obrigado a todos, assim sei com quem posso contar sempre!

Ainda que guerreira
Não sou invencível
Mas com vocês a protegerem-me
Sou mais forte…

Não sou especial
São vocês que me fazem sentir especial
Esta sensação inexplicável de que não mereço…
Mas encorajam-me…
Sinto por dever e gratidão
Retribuir…

Deste modo desajeitado
Desnudo as palavras
Com que queria fazer poesia
Mas não consigo
Jamais esquecerei
Este turbilhão de sentimentos…
Contidos…
De que transborda o meu coração
Mesmo que tivesse em minhas mãos
Todas as palavras do mundo
Só sairia um poema triste...

Descubro em cada imagem do mar
Uma energia que não sei explicar
Estranha conexão
É algo que me transcende
Ainda que do mar…o silêncio…
É nesse mar de silêncio
Que escuto o apelo intenso
Nas ondas mudas, revoltas
O impulso de avançar…
Quase lhe toco…
Num abraço frouxo…
O mar…
Espero no crepúsculo
A cumplicidade…
Acesa…
A agradável alegria do secreto sentir
Talvez seja a vontade inequívoca de um desejo
Á espera de um amanhecer com o murmúrio do mar




terça-feira, 22 de junho de 2010

Voltei...


Voltei!
Regresso de mansinho…
Sobrou-me tempo…
Neste tempo que escorria devagar…

A dor rasteja ainda presa a mim…
No ventre desnudado…
Desventrado âmago…
Onde as palavras nascem…
Dos rasgos secretos…
Flechas de vento fino, sombrio…
Trespassam as frinchas de confianças dispersas…
Varando as expectativas…

A alegria e os sonhos…
Andam de costas voltadas…
Apenas as mãos se encontram…
Entrelaçam-se para se ferirem…
No aperto desmedido da revolta que querem asfixiar…
Lágrimas frustradas…
Que enxugo á pressa…

(Porque tenho que ser forte?!)

O pulsar do espelho na mão trémula…
Reenvia a imagem desfeita…
O sabor a fel da verdade…
A cor fria do branco…
Tenta tapar a mágoa cristalina…
A pele enrugada num sorriso triste…

Algemada a mágoa á fútil esperança…
Que inutilmente alimentei na longa espera…
Disformes cicatrizes não se apagam…
Pedaços de incerteza reacenderam…
Nas noites que não passavam…
Nos ruídos que incomodavam…no silêncio que doía…
Revejo a dor sentida na nódoa negra da mão esquerda…
Que se disfarça lentamente em tons azulados…
Agora quero repousar…

Escreveria páginas e páginas…
Desta tristeza…
Um vazio sem tamanho…
Na subtil leveza das palavras indiferentes…
Voltei…
Regresso de mansinho…

quinta-feira, 10 de junho de 2010

Até já...


No inicio era eu sozinha.
Escrevia para desabafar. Com a fúria do momento, ou com a ternura da ocorrência que me caia das mãos nesse instante. Dava rédea solta aos pensamentos, ou aprisionava as palavras inquietas, com aparências misteriosamente esburacadas… vestia as ideias em camuflados gastos, e deixava-as a corar ao luar de ninguém.
No inicio era eu sozinha.
E nem sei contar ao certo como foi esse inicio traiçoeiro, em que cai na armadilha das palavras. Ouvia risinhos de satisfação, por ter sido a presa fácil num dia difícil. Não me importei. Fundo era o abismo onde tinha caído, distante era a luz que não via, enormes as barreiras que não tinha força para derrubar, altos os muros tinham a altura longínqua para me sentar. Deixei-me ficar no cómodo incómodo em que a minha mente caíra e deixem-me dormir, só me restava sonhar…
Foi passando devagar á minha volta, o tempo que corria depressa.
Libertei-me da suave armadilha rendilhada, com que me prenderam as palavras, tornei-me amiga das minhas carrascas, guardiãs de segredos por confessar. Saí do fosso cativeiro com a ajuda das folhas rasgadas de um livro incógnito, onde descobri o autor anónimo inanimado, que hibernava ao meu lado, esperando desesperadamente os últimos raios do sol de Inverno para tecer uma manta de agasalho, e flutuar na jangada de pedra rumo á clareira no bosque.

Caminhando trôpega mente… Por um caminho que aprendi a desbravar de mãos nuas e pés descalços.
Cheguei!

Convoquei as palavras
Uma a uma
Chamei-as pelos nomes
Quis reuni-las todas em volta de mim
Acomodei-as em almofadas de tafetá
Lá ao fundo, as vogais juntavam-se timidamente,
Aninhavam-se e cobriam-se com um til…
A palavra MÃE sempre preocupada, aproximou-se de mansinho e pergunta:
_ Que aconteceu? Vais deixar-nos?
_ Tenho um segredo para vos contar! Vou deixar-vos entregues a vós por uns tempos…
A SENSIBILIDADE, desatou a chorar sentindo-se uma idiota, com todas as palavras a olharem estarrecidas…
Endireitou-se o ORGULHO ocultando atrás de si os SOLUÇOS desenfreados…
A TIMIDEZ sorria, pensando o que tinha de especial esta mulher para gostar assim tanto dela…
A SOLIDÃO, rasgou o véu de silêncio e disse com sarcasmo:
_ O que se passa aqui? Porque nos fazes gaguejar loucamente com teus malditos mistérios?
Senti-me de novo prisioneira das minhas palavras! Pupilas das quais tanto aprendi…
_ Olhem para mim! (disse num tom frio e ameaçador) Não quero que fiquem tristes, (era assim que eu estava, mas tinha que ser FORTE). Tenho que partir… (consegui balbuciar) …
As LÁGRIMAS, assomavam-se á janela dos olhos…
A RESONSABILIDADE e o DEVER, permaneciam hirtos olhando um horizonte cinzento…
O bom SENSO e a CONFIANÇA abriram caminho no alfabeto aglomerando um texto risonho de frases cristalinas… acenando-me um ADEUS entre ASPAS…
_ Sem ti não somos nada! Volta depressa! Disse baixinho a ESPERANÇA, encolhendo-se nos braços do SILÊNCIO…
O PONTO FINAL tremia…
_ Descansa! Não te quero usar…
Agitava-se a PREOCUPAÇÃO num palpitar assustador…
A VONTADE DE VENCER gritou-lhe entre linhas torcidas, para não se esquecer de VIVER, de como a VIDA é SIMPLES, e não deixar de ACREDITAR na BELEZA das coisas que não se vêem…
_ E sobretudo não te escondas de ti atrás de nós! Ouvira-se a OUSADIA…
Abri os olhos semicerrados de MEDO para não desprezar nenhuma das palavras que me rodeavam…tantas…e tão poucas…
_ Por favor, esperem por mim…ATÉ JÁ!
Não estava contudo preparada para admitir que iria ter SAUDADES das suas HUMILDES PALAVRAS.
Praguejou ao CONTRATEMPO esperado…
Agarrou na trouxa vazia, pendurou-a ao ombro e sem se virar abalou!


Ao inicio era sozinha, mas agora não! Olho em meu redor e alguém me olha! Alguém me segue! Alguém me fala! Alguém me lê, alguém me escuta! Alguém me ignora também… alguém me critica, alguém apoia e alguém se cala, passando por aqui apenas, sem deixar rasto.
A todos vocês devo algo, todos me ensinam, todos me mostram a saída e entregam as chaves das portas que teimosamente se fecham.
Vou estar ausente da blogosfera por algum tempo, e como acho que não devia simplesmente virar as costas sem dizer nada, sinto que informa-los do motivo da minha (espero que breve) ausência seria o mínimo que podia fazer…
Vou ser submetida a uma intervenção cirúrgica que requer (contra a minha vontade) alguma permanecia no hospital…
A todos vocês, obrigado e até já…